VAMOS PENSAR, JUNTOS, SOBRE A CAMPANHA DA
FRATERNIDADE?
Por: Luis Gustavo da Silva Joaquim
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“Os
pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais
amados, porque cada um deles, com sua existência, também com as palavras e
sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho.”
(Leão XIV, Mensagem para o 9º Dia Mundial dos
Pobres, n. 5)
O
tempo da Quaresma é um caminho para regressar a Deus, isto é, o nosso GPS para
a conversão em todos os seus âmbitos: pessoal, eclesial, comunitário, etc.
Sendo assim, a cada ano, a Igreja no Brasil propõe um tema e lema do que
chamamos de Campanha da Fraternidade.
Antes
de tudo, o que é fraternidade? Na primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz
(2014), o Papa Francisco ampliou o nosso horizonte ao afirmar que “a raiz da
fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma
paternidade genética, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal
solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos seres humanos”.
Desse modo, nossa condição comum de filhos e filhas de Deus é o que nos torna
uma fraternidade. Não se trata simplesmente de uma condição criacional, mas
também por causa da redenção em Cristo que atinge a todos, sem exclusão. Somos
todos irmãos e irmãs! A própria ressurreição é geradora de uma humanidade nova,
que é chamada a viver uma renovada comunhão no amor e na fraternidade.
O
que fere esta fraternidade é justamente o pecado. No ato criador de Deus, os
irmãos possuíam diferenças, muito embora fossem chamados a viver a irmandade:
Caim era pastor e Abel era agricultor (cf. Gn 1-2). No entanto, o egoísmo tomou
conta do coração humano, desfigurando a relação de fraternidade que havia entre
eles. O pecado enfraquece a fraternidade. Daí a necessidade de recorrentes
campanhas de fraternidade. É conversão! É mudança de mentalidade. É tempo
quaresmal!
Definição
compreendida, vamos dar mais um passo. “Fraternidade e moradia” é o tema deste
ano de 2026, juntamente como lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Ora,
Jesus veio a nós, assumiu a nossa história, a nossa vida, a nossa existência. O
texto bíblico grego vai além de “morar”, mas remete à imagem da tenda (skēnḗ). Jesus “armou a sua tenda” entre
nós... Aquela tenda provisória do Antigo Testamento que acompanhava o povo no
deserto dá lugar a uma presença salvadora e definitiva do próprio Filho de Deus
dentro da história da humanidade. Deus, em seu Filho, não apenas visitou a
humanidade, mas decidiu morar nela, assumindo sua precariedade.
No
entanto, sabemos que “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Hospedarias
ocupadas significam uma humanidade desocupada de compaixão, de amor, de
fraternidade. Portanto, a falta de moradia não impede Deus de habitar, mas
revela onde ele escolhe e deve estar. Assim, a Igreja enquanto Sacramento de
Salvação é chamada a ser tenda aberta para acolher os irmãos e irmãs de rua,
sem teto, sem trabalho e sem terra.
Há
nisso tudo uma perspectiva escatológica também, pois, Jesus diz: “não se
perturbe o vosso coração [...] na casa do meu Pai há muitas moradas” (Jo
14.1-4). Há uma relação entre “morar aqui” e “morar lá”; é o “já e ainda não”,
como dizemos na teologia. Precisamos tocar nesse assunto aqui, no hoje da nossa
história, porque este é o nosso modo de participar no Reino definitivo de Deus,
que será na realidade celeste. A escatologia cristã revela que Deus sonha uma
casa onde todos cabem. Mas, fique claro, este sonho de Deus começa aqui e
agora, afinal de contas, o que vivemos hoje como fraternidade é sinal
antecipado do Reino definitivo.
Conforme
o texto base da Campanha deste ano, “no Brasil, 6 milhões de famílias
necessitam hoje de uma moradia [...]. Outras 26 milhões de famílias moram em
situação inadequada [...]. Existem mais de 300 mil pessoas vivendo na rua” (n.
30). Os números das estatísticas nos assustam!
E
se nos assustam, devem nos levar também a questionar: qual o motivo de tanta
desigualdade social no Brasil? Grosso modo, podemos objetivar duas situações
causadoras de tanta diferença: o sistema tributário e o sistema da dívida
pública. No primeiro, os pobres pagam proporcionalmente mais impostos que os
ricos; e, no segundo, a maior parte do orçamento do governo federal serve para cobrir
juros de dívidas, o que resulta na falta de verba para a saúde, a educação, a
moradia, etc. Ambas as situações, fazem com que “haja uma transferência de
renda da maioria da sociedade, a parte que ganha menos, para a pequena camada
mais rica, que vai concentrando cada vez mais renda e riqueza” (Texto Base, n.
33).
Enfim,
não é politicagem, não é ideologia. A Campanha da Fraternidade é um chamado de
conversão às nossas consciências anestesiadas por uma vida cômoda e insensível.
Há muito que fazer: lutar por políticas públicas, votar em candidatos que
tenham em suas pautas a responsabilidade com os menos favorecidos. Depois de
eleitos, é nosso dever cívico e cristão de fiscalizar e exigir que cumpram
essas pautas. Basta que olhemos ao nosso redor para perceber quanta gente
podemos ajudar com pequenos gestos de acolhida, ou encaminhamentos para instâncias
maiores que nós (ONGs, pastorais sociais, organismos públicos, etc). Tudo isso
é para nos tornar participantes de uma fraternidade que é universal: somos
todos irmãos e irmãs. Nunca nos esqueçamos disto!
Que a Virgem Maria, Senhora do Monte Carmelo, interceda por todos nós, para que sejamos uma Igreja samaritana, que cuida e acolhe a todos para, verdadeiramente, testemunhar a fraternidade necessária neste tempo de conversão quaresmal. Amém!
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