Campanha da Fraternidade 2026

 

VAMOS PENSAR, JUNTOS, SOBRE A CAMPANHA DA FRATERNIDADE?

Por: Luis Gustavo da Silva Joaquim

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“Os pobres não são um passatempo para a Igreja, mas sim os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com sua existência, também com as palavras e sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho.”

(Leão XIV, Mensagem para o 9º Dia Mundial dos Pobres, n. 5)

 

O tempo da Quaresma é um caminho para regressar a Deus, isto é, o nosso GPS para a conversão em todos os seus âmbitos: pessoal, eclesial, comunitário, etc. Sendo assim, a cada ano, a Igreja no Brasil propõe um tema e lema do que chamamos de Campanha da Fraternidade.

Antes de tudo, o que é fraternidade? Na primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz (2014), o Papa Francisco ampliou o nosso horizonte ao afirmar que “a raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus. Não se trata de uma paternidade genética, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal solícito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos seres humanos”. Desse modo, nossa condição comum de filhos e filhas de Deus é o que nos torna uma fraternidade. Não se trata simplesmente de uma condição criacional, mas também por causa da redenção em Cristo que atinge a todos, sem exclusão. Somos todos irmãos e irmãs! A própria ressurreição é geradora de uma humanidade nova, que é chamada a viver uma renovada comunhão no amor e na fraternidade.

O que fere esta fraternidade é justamente o pecado. No ato criador de Deus, os irmãos possuíam diferenças, muito embora fossem chamados a viver a irmandade: Caim era pastor e Abel era agricultor (cf. Gn 1-2). No entanto, o egoísmo tomou conta do coração humano, desfigurando a relação de fraternidade que havia entre eles. O pecado enfraquece a fraternidade. Daí a necessidade de recorrentes campanhas de fraternidade. É conversão! É mudança de mentalidade. É tempo quaresmal!

Definição compreendida, vamos dar mais um passo. “Fraternidade e moradia” é o tema deste ano de 2026, juntamente como lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Ora, Jesus veio a nós, assumiu a nossa história, a nossa vida, a nossa existência. O texto bíblico grego vai além de “morar”, mas remete à imagem da tenda (skēnḗ). Jesus “armou a sua tenda” entre nós... Aquela tenda provisória do Antigo Testamento que acompanhava o povo no deserto dá lugar a uma presença salvadora e definitiva do próprio Filho de Deus dentro da história da humanidade. Deus, em seu Filho, não apenas visitou a humanidade, mas decidiu morar nela, assumindo sua precariedade.

No entanto, sabemos que “não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). Hospedarias ocupadas significam uma humanidade desocupada de compaixão, de amor, de fraternidade. Portanto, a falta de moradia não impede Deus de habitar, mas revela onde ele escolhe e deve estar. Assim, a Igreja enquanto Sacramento de Salvação é chamada a ser tenda aberta para acolher os irmãos e irmãs de rua, sem teto, sem trabalho e sem terra.

Há nisso tudo uma perspectiva escatológica também, pois, Jesus diz: “não se perturbe o vosso coração [...] na casa do meu Pai há muitas moradas” (Jo 14.1-4). Há uma relação entre “morar aqui” e “morar lá”; é o “já e ainda não”, como dizemos na teologia. Precisamos tocar nesse assunto aqui, no hoje da nossa história, porque este é o nosso modo de participar no Reino definitivo de Deus, que será na realidade celeste. A escatologia cristã revela que Deus sonha uma casa onde todos cabem. Mas, fique claro, este sonho de Deus começa aqui e agora, afinal de contas, o que vivemos hoje como fraternidade é sinal antecipado do Reino definitivo.

Conforme o texto base da Campanha deste ano, “no Brasil, 6 milhões de famílias necessitam hoje de uma moradia [...]. Outras 26 milhões de famílias moram em situação inadequada [...]. Existem mais de 300 mil pessoas vivendo na rua” (n. 30). Os números das estatísticas nos assustam!

E se nos assustam, devem nos levar também a questionar: qual o motivo de tanta desigualdade social no Brasil? Grosso modo, podemos objetivar duas situações causadoras de tanta diferença: o sistema tributário e o sistema da dívida pública. No primeiro, os pobres pagam proporcionalmente mais impostos que os ricos; e, no segundo, a maior parte do orçamento do governo federal serve para cobrir juros de dívidas, o que resulta na falta de verba para a saúde, a educação, a moradia, etc. Ambas as situações, fazem com que “haja uma transferência de renda da maioria da sociedade, a parte que ganha menos, para a pequena camada mais rica, que vai concentrando cada vez mais renda e riqueza” (Texto Base, n. 33).

Enfim, não é politicagem, não é ideologia. A Campanha da Fraternidade é um chamado de conversão às nossas consciências anestesiadas por uma vida cômoda e insensível. Há muito que fazer: lutar por políticas públicas, votar em candidatos que tenham em suas pautas a responsabilidade com os menos favorecidos. Depois de eleitos, é nosso dever cívico e cristão de fiscalizar e exigir que cumpram essas pautas. Basta que olhemos ao nosso redor para perceber quanta gente podemos ajudar com pequenos gestos de acolhida, ou encaminhamentos para instâncias maiores que nós (ONGs, pastorais sociais, organismos públicos, etc). Tudo isso é para nos tornar participantes de uma fraternidade que é universal: somos todos irmãos e irmãs. Nunca nos esqueçamos disto!

Que a Virgem Maria, Senhora do Monte Carmelo, interceda por todos nós, para que sejamos uma Igreja samaritana, que cuida e acolhe a todos para, verdadeiramente, testemunhar a fraternidade necessária neste tempo de conversão quaresmal. Amém!

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