6º DOMINGO DO TEMPO COMUM, Ano A | Reflexão
Por: Seminarista Luis Gustavo da
Silva Joaquim
Eclo 15,16-21 | Sl 18(119),1-2.4-5.17-18.33-34 (R.
1) | 1Cor 2,6-10 | Mt 5,17-37
Amados irmãos e irmãs,
há um ditado popular que diz que “nem tudo que reluz é ouro; a aparência
engana, mas o coração entrega”. Trata-se de uma verdade antropológica presente
também na Sagrada Escritura. Tanto é verdade que a liturgia deste 6º Domingo do
Tempo Comum, que já nos aponta para a Quaresma, convida-nos a olhar para dentro
de nós, para o nosso coração, a fim de encontrar a verdade de quem somos e do
que fazemos.
A primeira leitura é
clara e até desconcertante: “Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o
mal; o que ele escolher lhe será dado” (Eclo 15,17). O livro do Eclesiástico,
escrito no início do séc. II a.C., nasce num contexto em que havia dupla tentação:
abandonar a Lei em nome da liberdade ou reduzi-la a um sistema muito rígido. Sendo
assim, o autor responde com uma teologia equilibrada apresentando uma verdade
fundamental da fé bíblica: Deus não força o ser humano; Ele propõe, orienta,
ilumina, mas respeita profundamente a liberdade que ele mesmo nos deu.
A Lei de Deus não é uma
prisão, mas um caminho de vida. Obedecer aos mandamentos não é submeter-se a um
poder autoritário, mas escolher viver segundo a sabedoria de Deus. O pecado, no
entanto, não é simples desobediência a uma regra, mas é uma ruptura da
confiança, uma escolha que nos afasta da vida plena. Deus não se alegra com a
morte do pecador, mas sofre quando o ser humano escolhe caminhos que o
desumanizam.
O apóstolo Paulo, na
segunda leitura, aprofunda ainda mais essa visão. Ele fala de uma “sabedoria de
Deus, misteriosa e escondida”, que só pode ser compreendida à luz do Espírito
Santo (1Cor 2,6-10). A fé cristã não é moralismo nem simples código de conduta.
Ela é revelação, é dom, é participação no próprio olhar de Deus sobre a
realidade. Só o Espírito pode nos fazer compreender que os mandamentos não são
um peso, mas um caminho de configuração com Cristo. Sem o Espírito, a lei vira
legalismo; com o Espírito, ela se torna vida interior, liberdade e amor.
No Evangelho, Mateus escreve
para uma comunidade judaico-cristã que vive um conflito entre seguir Jesus ou permanecer
fiel às leis e tradições. Por isso que Jesus, no contexto do sermão da
montanha, diz: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim
abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). Ora, o problema não é a Lei,
mas a forma como ela é interpretada e vivida. E isto não é exclusividade dos
tempos de Jesus, pois, ainda hoje vivemos em contextos, grupos ou até mesmo
pastorais de nossa Igreja que vivem o legalismo ou fundamentalismo bíblico a
ponto de mais afastar as pessoas em vez de trazê-las para perto.
Jesus nos mostra que o
pecado começa antes do ato, nasce nas disposições interiores, nos desejos mal
orientados, nos afetos desordenados, nas palavras feridas, nos silêncios
carregados de ódio e rancor. Ora, não basta não matar: o ódio já mata por
dentro (Mt 5,22); não basta não cometer adultério: o olhar que usa o outro já
corrompe o amor (Mt 5,28). O coração torna-se o verdadeiro lugar teológico da
moral cristã, pois, é de dentro que saem as nossas intenções, boas ou más.
Sendo assim, o pecado não começa no ato, mas na decisão interior. Como dizia
São Jerônimo: “A Lei de Cristo não está escrita em tábuas de pedra, mas no
coração do fiel” (Comentário a Jeremias,
31).
Neste domingo, o Senhor
nos chama a uma fé madura, profunda e sincera. Uma fé que não se contenta com
aparências, mas busca a verdade do coração. Ele nos coloca novamente diante da
escolha: vida ou morte, superficialidade ou profundidade, letra ou espírito.
Afinal de contas, seguir a Cristo é permitir que a Lei deixe de ser algo
“diante de nós” e se torne vida dentro de nós, pela ação do Espírito Santo: “Não
é o muito saber que sacia a alma, mas o sentir e saborear internamente as
coisas” (Santo Inácio de Loyola, Exercícios
Espirituais, 2).
Assim seja. Amém!

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