QUARTA-FEIRA DE CINZAS, Ano A | Reflexão
Por: Seminarista Luis Gustavo da
Silva Joaquim
Jl 2,12-18 | Sl 50(51),3-4.5-6a.12-13.14 e 17 (R.
cf. 3a) | 2Cor 5,20-6,2 | Mt 6,1-6.16-18
A liturgia de hoje nos insere
no tempo quaresmal, que não é uma simples preparação moral para a Páscoa, mas verdadeiro
kairós, isto é, tempo favorável da
graça de Deus. O apelo que perpassa as leituras é claro: Deus não quer gestos
vazios, mas um coração convertido.
Nesse sentido, o
profeta Joel proclama, em nome do Senhor: “Voltai para mim de todo o vosso
coração” (Jl 2,12). A conversão bíblica não é primeiramente mudança de
comportamento, mas mudança de direção, retorno ao centro da Aliança. Por isso,
Deus não se contenta com vestes rasgadas, sinais exteriores de luto: “Rasgai o
coração, e não as vestes” (Jl 2,13).
Desse modo, o jejum, a
oração e a penitência só têm valor se forem expressão de um coração ferido pelo
amor de Deus e desejoso de voltar a Ele. O apóstolo Paulo adverte que “Agora é
o tempo favorável, agora é o dia da salvação” (2Cor 6,2). Não percamos tempo,
irmãos: “Quem adia a conversão, não sabe se terá amanhã; quem acolhe a graça
hoje, já começa a viver a eternidade” (Santo Ambrósio).
Tanto é verdade que
Jesus, no Evangelho, não critica as práticas da esmola, oração e jejum, até
porque eram atitudes da piedade judaica do século I. O que ele denuncia é a
hipocrisia, palavra que deriva do teatro grego (hypokritḗs) e designa aquele que representa um papel. É preciso que
deixemos nossas mascaras caírem para que Deus nos veja como de fato somos. Portanto,
Quaresma é o tempo de deixar Deus nos ver: “Teu Pai, que vê o que está
escondido” se repete como um refrão ao longo do texto evangélico (vv. 4.6.18) justamente para indicar isto. O
tempo da Quaresma nos pede uma decisão firme: “voltai para mim com todo o vosso
coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o vosso coração... e voltai
para o Senhor, vosso Deus” (Jl 2,12-13).
Como fazemos este
caminho de regresso a Deus? Jesus, no Evangelho, nos indica o caminho concreto de
volta para Deus, revisando os três principais relacionamentos da nossa vida:
com o nosso próximo (esmola), com Deus (oração) e conosco mesmos (jejum).
Na missa de hoje,
participamos da imposição de cinzas sobre a cabeça, junto da exortação: “Convertei-vos
e crede no Evangelho”. Ora, as cinzas não são sinal de morte, mas de verdade.
Elas nos libertam da ilusão de autossuficiência e nos abrem à graça. Quem
reconhece sua fragilidade está pronto para acolher a misericórdia, pois como
dizia Santa Teresa de Jesus: “A humildade é andar na verdade; e a verdade é
saber que tudo o que somos vem de Deus”.
Enfim, a Quaresma
começa hoje, não como peso, mas como dom. Deus nos chama a voltar, não por
medo, mas porque ele é “bondoso e compassivo” (Jl 2,13). Afinal de contas, “a
Quaresma é uma viagem de regresso a Deus” (Papa Francisco).
Assim seja. Amém!

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