2º DOMINGO DA QUARESMA, Ano A | Reflexão
Por: Seminarista Luis Gustavo da
Silva Joaquim
Gn 12,1-4a | Sl
32(33),4-5.18-19.20.22 (R. cf. 22) | 2Tm 1,8b-10 | Mt 17,1-9
Queridas irmãs e
irmãos. Se no 1º Domingo da Quaresma fomos conduzidos ao deserto da tentação,
hoje somos levados ao Monte da Transfiguração. No Evangelho, Jesus sobe ao
monte com Pedro, Tiago e João. A transfiguração acontece no caminho para
Jerusalém, ou seja, à sombra da cruz. A glória não elimina o sofrimento; ela o
ilumina. Lá no alto do monte, a voz do Pai não diz: “olhai”, nem “admirai”, mas
diz “escutai-o” (Mt 17,5). Ora, tudo
converge para esse imperativo na liturgia desta celebração; a luz, a nuvem, a
glória, Moisés e Elias existem para conduzir os discípulos a uma única atitude
fundamental: a escuta obediente do Filho.
No contexto bíblico,
escutar não é um ato intelectual, mas existencial; é o verbo da aliança que
Deus deseja estabelecer com seu povo, por isso mesmo, se trata do verbo
hebraico shemá, que significa ao
mesmo tempo: ouvir, obedecer, acolher e responder com a própria vida. Em outras
palavras, não se escuta sem obedecer! Quem diz “escutei, mas não fiz”, na
verdade, não escutou. O povo de Israel não começa sua fé com uma imagem de
Deus, mas com uma voz. Por isso, a fé bíblica nasce do ouvido, não do olhar.
Escutar significa acolher a Palavra, confiar nela e permitir que ela ordene a nossa
vida.
A Transfiguração,
narrada no Evangelho, acontece logo após Jesus anunciar a sua paixão. Ou seja,
o Pai diz “escutai-o” sabendo que o Filho fala de cruz, de perda, de doação, de
entrega. Escutar Jesus não significa escutar apenas palavras consoladoras, mas
também aquelas que desinstalam, que confrontam, que exigem conversão. Assim,
escutar é mais do que ouvir palavras: é obedecer, acolher, deixar-se conduzir.
A Quaresma é, antes de tudo, um tempo de silêncio interior, para que a Palavra
de Cristo volte a ter autoridade sobre nossas escolhas.
Foi o que aconteceu com
Abraão, na primeira leitura. Deus disse: “Sai da tua terra, da tua família e da
casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (Gn 12,1). Abraão
não caminha porque sabe aonde vai, mas porque confia em quem o chama. Eis o
núcleo da espiritualidade quaresmal: deixar o que nos é cômodo para nos abrir
ao que Deus promete. Antes de qualquer coisa, Abraão escuta, acolhe e confia. O
texto do livro de Gênesis sugere que Abraão deixe terra, que simboliza a
segurança material; deixa a família, que simbolizam os vínculos afetivos; e
deixa a casa do pai, que simboliza a herança e identidade.
Desse modo, a mesma
lógica do “escutai-o” nos coloca Cristo acima de qualquer outra voz, inclusive
das vozes interiores que nos dizem para ficar onde estamos, no comodismo.
Portanto, Abraão inaugura a espiritualidade do êxodo: sair de si para confiar
em Deus. O “escutai-o” da Transfiguração é o mesmo convite, agora concretizado
em Cristo.
Porém, conforme a
narração do Evangelho, diante da voz do Pai, os discípulos caem com o rosto por
terra. Isto para nos mostrar que a escuta autêntica sempre provoca temor,
porque Deus não confirma nossos ídolos, nossos desejos, nossos afetos
desordenados, mas nos convida a uma vida nova, isto é, novas atitudes. O Evangelho,
portanto, diz algo belíssimo: Jesus se aproxima, toca neles e diz: “Levantai-vos,
não tenhais medo” (Mt 17,7). Ora, a Palavra de Deus que nos desinstala é a
mesma que nos levanta. Escutar Jesus não nos humilha, mas nos recria. Ele não
fala para esmagar, mas para libertar.
Assim como Abraão
deixou a casa do pai, o discípulo é chamado a deixar as falsas paternidades, os
falsos absolutos, para reconhecer um único Filho e um único Pai. Por isso os
discípulos descem do monte restaurados, ou seja, transfigurados com Cristo. A
escuta verdadeira nos leva à mudança; não nos esqueçamos disto.
Assim seja. Amém!

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