DOMINGO NA OITAVA DA PÁSCOA, Ano A |
Domingo da Misericórdia
Por: Seminarista Luis Gustavo da
Silva Joaquim
At 2,42-47 | Sl 117(118),2-4.13-15.22-24 (R. 1) |
1Pd 1,3-9 | Jo 20,19-31
Queridos irmãos e
irmãs, existe uma tensão muito profunda nas leituras de hoje: medo e fé,
fechamento e envio, feridas e misericórdia. E é justamente nesse espaço de
tensão que acontece a experiência pascal. O Evangelho começa com uma imagem
muito forte: “As portas estavam fechadas, por medo dos judeus” (Jo 20,19). Essa
frase não é apenas narrativa, mas é teológica. Os discípulos não estão só
trancados numa casa, mas estão fechados dentro de si mesmos: fechados pela
culpa (porque abandonaram Jesus), fechados pela decepção, fechados pelo medo do
futuro.
E é nesse ambiente que
acontece o primeiro anúncio pascal: “Jesus veio, colocou-se no meio deles e
disse: A paz esteja convosco” (Jo 20, 19.21.26). O Senhor deseja esta paz por
três vezes no Evangelho desta liturgia. Assim, quando Jesus aparece aos
discípulos, ele não faz um discurso, não cobra explicações, não recorda as
traições, mas deseja a paz. Ora, a paz é o primeiro dom pascal. Ou seja, a paz
de Cristo não depende das circunstâncias externas, mas da sua presença.
Depois de saudar, Jesus
diz: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos” (Jo 20,27). Ora, o Senhor não
esconde as feridas do caminho, isto é, não apaga a cruz. A Páscoa não é, pois,
negação do sofrimento, mas sim a transfiguração do sofrimento. Em outras
palavras, as chagas permanecem, mas agora são sinais de amor.
Quais marcas da vida
trazemos em nossas mãos? Quais marcas do tempo trazemos em nosso rosto? Cada um
de nós trazemos conosco uma história que pode ser sinal de ódio ou sinal de
amor. Tudo depende do modo como olhamos para as situações. Tomé quis tocar,
quis ver, quis experimentar. E Jesus não o rejeita por isso. Ao contrário: vai
ao encontro da sua dúvida. Mostra-lhe as chagas. Permite que ele toque, porque
Deus não tem medo das nossas feridas, mas entra nelas. Quando permitimos que
Cristo entre em nossas chagas, elas deixam de ser sinais de derrota e se tornam
sinais de graça. Aquilo que antes era dor, passa a ser fonte de compaixão.
Aquilo que antes era peso, torna-se testemunho. Aquilo que antes nos prendia ao
passado, torna-se caminho de salvação.
Voltemos o nosso olhar
para a figura do apóstolo Tomé. Ele representa cada um de nós, que somos homens
e mulheres buscadores da verdade. Costumamos, erroneamente, chamá-lo de
incrédulo. Contudo, ele é o “dídimo”, isto é, o “gêmeo” do Senhor; enquanto
todos estão trancados com medo, ele está seguindo a vida, apesar do medo – e
por isso não vê a aparição do Ressuscitado. Oito dias depois Jesus aparece
novamente na presença deste homem buscador da Verdade e diz: “Põe o teu dedo
aqui… vê as minhas mãos…”. O texto não diz que Tomé colocou ou não a mão para
crer. O fato é que ele fez a profissão de fé mais bonita de toda a sua vida:
“Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20,28). Nesse momento, antes das mãos, o coração de
Tomé já foi tocado.
Neste tempo pascal, em
qual área da nossa vida o Senhor ainda precisa tocar para que professemos
verdadeiramente a fé neste Deus que é vivo e verdadeiro?
Irmãos e irmãs, depois
da Ressurreição, os discípulos “eram perseverantes na doutrina dos apóstolos,
na comunhão, na fração do pão e nas orações” (At 2,42); no Evangelho, Jesus
ressuscitado se apresenta aos discípulos “no primeiro dia da semana”, quando a
comunidade está reunida. Portanto, é na comunidade que renovamos a nossa fé
pascal e experimentamos a misericórdia divina. Não nos afastemos dela. Que
hoje, diante da Misericórdia de Jesus, possamos fazer a oração de Tomé, não
como dúvida, mas como entrega: “Meu Senhor e meu Deus”. Que saiamos como a
Igreja nascente: vivendo, partilhando e testemunhando que eterna é a sua
misericórdia!
Assim seja. Amém!

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