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A igreja que foi saqueada

 

A IGREJA QUE FOI SAQUEADA

 

Havia, no interior do estado, uma pequena cidade chamada Assuntópolis, tão pacata quanto orgulhosa de suas tradições. Suas ruas estreitas, suas casas antigas e suas conversas demoradas nas calçadas compunham a paisagem de um lugar onde o tempo parecia correr mais devagar, ao menos para quem vinha de fora. Para os que ali moravam, porém, tudo acontecia depressa. Sobretudo as notícias.

A cidade tinha por padroeiro Santo Antônio, conhecido, entre outras coisas, por sua fama de santo casamenteiro. Por isso, não era de estranhar que a pequena Matriz se tornasse o destino preferido de noivos e noivas que desejavam selar, diante de Deus e da comunidade, a união sacramental. Havia quem viesse de cidades vizinhas apenas para se casar ali, convencido de que, sob a proteção do santo, o matrimônio começaria com o “pé direito”.

A Igreja era o coração da cidade. Em torno dela girava boa parte da vida dos moradores: os batizados, as primeiras comunhões, os casamentos, as festas do padroeiro e, naturalmente, os funerais. Mas, se a igreja era o coração, a praça em frente era a língua. E que língua!

Naquela cidade, todos conheciam todos — ou, pelo menos, acreditavam conhecer. As notícias circulavam com uma eficiência que faria inveja a qualquer redação de jornal. Bastava alguém cochichar alguma coisa na fila da padaria para que, antes do meio-dia, o assunto já tivesse passado pelo salão de beleza, pelo balcão da farmácia, pela sacristia e pelas mesas do almoço de meia dúzia de famílias.

Uma notícia particularmente interessante podia percorrer a cidade inteira em menos tempo do que se levava para rezar um terço. Foi assim que todos souberam da chegada de um novo pároco. Seu nome era Padre Pedro.

— Agora, sim, nossa paróquia vai para a frente! — dizia dona Conceição, uma das senhoras mais assíduas da igreja, enquanto aguardava a missa na calçada.

— Ele é a nossa esperança! — concordava outra, ajeitando o véu sobre os cabelos.

A expectativa era compreensível. O padre anterior, Padre Joãozinho, havia sido transferido meses antes, depois de um período marcado por insatisfações, murmúrios e reclamações encaminhadas à Cúria. Os paroquianos mais engajados, especialmente aqueles que ocupavam cargos nas pastorais e nos movimentos, haviam se mobilizado para pedir providências.

As queixas eram muitas, e, com o tempo, pareciam ter se transformado numa espécie de ladainha comunitária. Diziam que Padre Joãozinho não era carismático, que não sabia trabalhar com a juventude, que não gostava de crianças,que não tratava os idosos com a devida atenção... Que suas homilias eram longas demais, suas respostas curtas demais e sua disposição para atender às solicitações dos grupos pastorais, insuficiente demais.

Mas havia uma acusação que se sobrepunha a todas as outras, como uma pedra no sapato da comunidade: o desaparecimento das antigas imagens sacras que ornamentavam a Matriz.

Eram imagens antigas, algumas com mais de um século, que haviam acompanhado gerações de fiéis. Havia quem jurasse que sua avó rezava diante delas quando ainda era menina. Outros diziam ter sido batizados sob o olhar daqueles santos. Para muitos, não eram apenas peças de madeira pintada, mas testemunhas silenciosas da história da cidade.

Certo dia, porém, desapareceram. Ninguém soube explicar exatamente quando, nem por que motivo. Quando os fiéis começaram a perguntar, Padre Joãozinho teria dado respostas vagas, ou assim diziam aqueles que afirmavam ter conversado com ele. A suspeita cresceu, ganhou corpo e, em pouco tempo, converteu-se em certeza na boca de muitos: o padre havia sumido com as imagens.

A transferência, portanto, foi recebida por boa parte dos paroquianos como uma espécie de reparação tardia. Não se falava abertamente em vitória, é verdade. Afinal, tratava-se de um sacerdote, e a caridade cristã exigia certa discrição. Mas, nas conversas mais reservadas, havia quem dissesse que a Cúria finalmente fizera justiça. Foi nesse ambiente de expectativas e ressentimentos que Padre Pedro chegou.

No dia marcado, a cidade parecia ter acordado mais cedo. A Matriz estava enfeitada, as senhoras das pastorais haviam preparado uma recepção, e alguns jovens se encarregaram de organizar o acolhimento na porta da igreja. Havia flores, cartazes e até um pequeno grupo de crianças ensaiado para cantar uma canção de boas-vindas.

Quando o carro com o novo pároco apareceu na praça, todos se aproximaram. Padre Pedro desceu sorrindo. Era jovem, tinha uma aparência agradável, falava com desenvoltura e parecia possuir aquela rara habilidade de fazer cada pessoa acreditar que, naquele breve encontro, ela era a mais importante do mundo.

Cumprimentou os idosos com delicadeza, abaixou-se para falar com as crianças, brincou com os jovens e abraçou os representantes das pastorais. Não demorou a descobrir os nomes de algumas pessoas, perguntar pelos familiares e demonstrar interesse pela história da comunidade.

— Que padre simpático! — comentou alguém.

— Um verdadeiro presente de Santo Antônio! — respondeu outra pessoa.

Na primeira missa, a igreja ficou lotada. Na segunda, as pessoas chegaram mais cedo para garantir lugar. Na terceira, já havia quem convidasse parentes que há muito tempo não frequentavam as celebrações.

O povo parecia ter encontrado, enfim, o pastor que tanto desejava. E as novidades não pararam por aí. Padre Pedro aumentou o número de missas, promoveu récitas do santo terço, organizou celebrações especiais e demonstrou entusiasmo pelas festas e devoções populares. Passou a visitar algumas famílias, incentivou a participação dos jovens e procurou dar mais movimento às atividades paroquiais.

Tudo parecia novo. Tudo parecia animado. Nas homilias, falava com entusiasmo sobre o amor de Deus, a misericórdia, a esperança e a importância de acolher a todos. Suas palavras eram agradáveis, seus exemplos arrancavam sorrisos e, não raro, algumas senhoras enxugavam discretamente as lágrimas.

— Padre Pedro é um doce! — repetia dona Conceição.

— Parece que nasceu para ser padre! — dizia outra.

Se alguém apontava algum pequeno defeito, logo aparecia quem o justificasse. Afinal, depois de tudo o que haviam suportado com o antigo pároco, não seria justo exigir perfeição do novo. Aos poucos, Padre Joãozinho foi desaparecendo das conversas. Primeiro, deixou de ser assunto nas reuniões. Depois, seu nome já não aparecia nas rodas de conversa da praça. Por fim, quase ninguém parecia se lembrar dele, a não ser quando alguém precisava explicar por que a paróquia havia passado por um período tão difícil.

A transferência, que antes era motivo de comentários, tornara-se um capítulo encerrado. Ninguém mais falava em procurar a Cúria. Ninguém mais reclamava do pároco. A comunidade estava satisfeita. Quase inteiramente satisfeita. Restava, porém, uma pergunta que continuava a aparecer aqui e ali, sobretudo entre os mais antigos:

— E as imagens? O que será que aconteceu com aquelas imagens antigas?

A pergunta incomodava porque não tinha resposta. E, embora a chegada de Padre Pedro tivesse amenizado muitas inquietações, não havia simpatia capaz de fazer desaparecer por completo uma ausência tão significativa.

O novo pároco, quando questionado, mostrava-se pouco disposto a aprofundar o assunto. Dizia que seria necessário verificar os registros, consultar documentos antigos e conversar com pessoas que já não estavam mais na cidade. Prometia procurar informações, mas sempre surgia alguma urgência pastoral que o obrigava a adiar a investigação.

O tempo passou, e a pequena Matriz começou a dar sinais de que precisava de uma reforma. A pintura estava desgastada, algumas paredes apresentavam manchas de umidade e havia pontos do telhado que já não suportavam com dignidade as chuvas mais fortes. O piso também exigia cuidados, e certos cômodos anexos à igreja pareciam esquecidos havia décadas.

A reforma tornou-se assunto frequente nas reuniões paroquiais. Foi então que muitos se surpreenderam com a resistência de Padre Pedro.

— Precisamos pensar com calma — dizia ele. — Uma obra dessas exige muito trabalho, muito dinheiro e muita responsabilidade. Não podemos começar sem ter certeza de que conseguiremos terminar.

A princípio, suas ponderações foram recebidas como sinal de prudência. Afinal, não adiantava derrubar paredes sem saber como reconstruí-las. Mas as perguntas continuaram.

— E o dinheiro que temos no caixa, padre? — quis saber um membro do conselho econômico.

Padre Pedro suspirou antes de responder.

— Infelizmente, a situação financeira não é das melhores. Quando cheguei, encontrei muitas contas a pagar. O padre anterior não deixou recursos suficientes para cobrir as despesas, e ainda estamos tentando colocar tudo em ordem.

Em poucas horas, já se comentava que Padre Joãozinho havia deixado a paróquia endividada. Em poucos dias, alguém acrescentou que ele gastava sem prestar contas. Uma semana depois, havia quem garantisse que o dinheiro das imagens desaparecidas também deveria estar envolvido na história.

Ninguém apresentava documentos. Ninguém sabia precisar valores. Ninguém parecia recordar que, até pouco tempo antes, as contas do antigo pároco eram um assunto sobre o qual quase nada se sabia.

Mas isso pouco importava. A desconfiança, quando encontra terreno fértil, cresce sem precisar de provas. E o ressentimento, uma vez alimentado, tem o estranho poder de transformar suspeitas em lembranças e boatos em fatos incontestáveis.

Assim, o nome de Padre Joãozinho voltou a circular pela cidade — não como o de um sacerdote que talvez tivesse cometido erros, mas como o de alguém a quem se podia atribuir praticamente tudo o que havia de errado na paróquia. Enquanto isso, a reforma continuava sendo adiada.

Até que, numa manhã de sábado, durante uma vistoria nos cômodos esquecidos do subsolo da Matriz, alguns homens encontraram uma porta antiga, parcialmente encoberta por caixas, tábuas e objetos sem uso. O espaço atrás dela estava empoeirado, abafado e repleto de móveis cobertos por lençóis. Foi necessário retirar alguns entulhos para conseguir entrar. E então veio a surpresa. Ali estavam as antigas imagens sacras. Todas elas.

São José, Nossa Senhora, São Sebastião e os demais santos que haviam desaparecido dos altares estavam acomodados cuidadosamente num dos cômodos. Algumas peças repousavam sobre suportes de madeira; outras, protegidas por tecidos e embalagens. Não havia sinais de abandono deliberado. Pelo contrário: as imagens pareciam ter sido guardadas com zelo.

Mas o que mais chamou a atenção dos homens foi o estado de conservação das peças: todas haviam sido restauradas! A madeira estava limpa, as cores recuperadas, os detalhes recompostos com delicadeza. Algumas imagens apresentavam pequenas intervenções nas mãos e nos rostos, enquanto outras exibiam vestígios de um trabalho minucioso de recuperação. Era evidente que alguém havia dedicado tempo, dinheiro e conhecimento à preservação daquele patrimônio. A notícia se espalhou pela cidade com a velocidade de sempre. Naquela tarde, já não se falava em outra coisa.

— Então Padre Joãozinho não roubou as imagens! — exclamou uma senhora, ao saber da descoberta.

— Pelo visto, estava mandando restaurá-las — ponderou um homem.

— E por que não explicou isso a ninguém? — perguntou outra pessoa.

A pergunta era legítima. Talvez o antigo pároco tivesse falhado na comunicação. Talvez tivesse planejado uma surpresa para a festa do padroeiro. Talvez houvesse razões que a comunidade desconhecia. Ninguém podia afirmar com segurança.

Começaram a circular comentários de que Padre Joãozinho pretendia reapresentar as imagens no dia de Santo Antônio, depois de uma restauração que devolveria às peças a beleza de outros tempos. A surpresa, segundo essa versão, deveria ser acompanhada de uma celebração especial, com a participação dos fiéis mais antigos.

Era uma história plausível, mas ainda não havia confirmação. De qualquer modo, a principal acusação parecia desfeita. As imagens não haviam sido roubadas. Estavam ali, guardadas no subsolo da própria igreja, restauradas e à espera de voltarem aos seus lugares.

Seria natural imaginar que, diante da descoberta, a comunidade reconhecesse o equívoco, reconsiderasse os julgamentos e procurasse esclarecer o que realmente havia acontecido. Mas as coisas raramente são tão simples quando o orgulho entra em cena.

Alguns admitiram que talvez tivessem sido precipitados. Outros disseram que, ainda assim, Padre Joãozinho não era um bom pároco. Houve quem sustentasse que restaurar imagens não compensava a falta de carisma, e quem afirmasse que o antigo sacerdote deveria ter explicado tudo desde o princípio. Aos poucos, a descoberta deixou de ser uma prova capaz de corrigir o julgamento coletivo e passou a ser apenas mais um assunto a ser acomodado dentro das convicções que cada um já possuía.

O fato de as imagens terem sido encontradas não apagava as antigas reclamações. E, para muitos, nem precisava apagar. O padre continuava transferido, Padre Pedro continuava sendo querido, e a cidade podia seguir em frente sem precisar rever toda a história.

Assim, o caso foi sendo esquecido. Ou quase. Porque, naquela cidade, as notícias podiam desaparecer das conversas, mas as contradições tinham o hábito de permanecer escondidas, como as próprias imagens no subsolo da Matriz.

 

Fim.

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