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Dia do Senhor

 

DIA DO SENHOR

 Diác. Luis Gustavo da Silva Joaquim


A dondoca era piedosa. Todos os domingos era a mesma coisa: às badaladas dos sinos da matriz de Santo Antônio, lá estava ela com sua bolsa pomposa e seu vestido de seda. Era moça culta, religiosa, rica e poderosa. Muito bem acolhida pelo vigário, coroinhas e ministros.

As ofertas, generosas. Uma moça de coração bom. Estava disposta a ajudar sempre que a Igreja pedisse reforma. Quando a reza terminava, lá estava ela na sacristia, oferecendo ajuda, perguntando ao padre se estava tudo em ordem e com um elo sorriso de prontidão no rosto.

Na semana seguinte, a mesma coisa, afinal, era o dia do Senhor. E a dondoca era piedosa ao extremo...

Chegou a famosa quermesse do padroeiro, e o discurso foi lindo! O vigário convidou a dondoca para discursar na entrega os pãezinhos abençoados, ademais, ela havia sido a maior colaboradora nesta obra de evangelização e alimentação dos menos favorecidos. Realmente, a paróquia se destacava na diocese pelo alto nível de assistência aos pobres. E tudo, claro, graças a generosidade da moça.

Passada a correria das festas, tudo volta ao normal no município, e a ordinariedade toma conta da população...

Era dia do Senhor: lá estava novamente ela com seus trajes rebuscados e sua pele de animal cobrindo o corpo para precaver-se do frio. E fazia muito frio. A missa foi solene e muito bem rezada. O evangelho do dia era sobre o primeiro mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O sermão do vigário, impecável! Ao término, voltamos àquela ladainha, na sacristia, de exagerada disposição da dondoca às coisas sacras.

Acontece que, naquele dia, a saída foi diferente. A moça que costumava retornar para sua casa com ascese espiritual, naquele dia foi parada na rua por um homem maltrapilho, que sentia muito frio e fome. Estava todo sujo. Com dificuldades de falar por causa da saúde debilitada, pedia apenas um pão.

Enraivecida, a dondoca, que tinha a sua espera um delicioso caldo para deleitar-se no almoço, não deu nem ouvidos ao rapaz. “Homem sem noção”, dizia ela. Nem ao menos prestou-se a serviço de procurar alguma migalha em sua bolsa de marca francesa. Toda a espiritualidade vivida por ela na missa estava se perdendo com a insistência daquele rapaz “sem noção”.

Contudo, naquele domingo frio, o homem não tinha sequer um pão. Mas é claro, não era dia de quermesse de Santo Antônio. Ademais, não havia microfone para anunciar a generosidade da moça dizimista. Não sabemos aonde aquele pobre homem se encostou para cumprir seus dias, mas sabemos que, na verdade, para aquela dondoca, era somente o dia do Senhor, e não o dia dos irmãos.

Fim.

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