DIA
DO SENHOR
A dondoca era piedosa. Todos os domingos era a
mesma coisa: às badaladas dos sinos da matriz de Santo Antônio, lá estava ela
com sua bolsa pomposa e seu vestido de seda. Era moça culta, religiosa, rica e
poderosa. Muito bem acolhida pelo vigário, coroinhas e ministros.
As ofertas, generosas. Uma moça de coração
bom. Estava disposta a ajudar sempre que a Igreja pedisse reforma. Quando a
reza terminava, lá estava ela na sacristia, oferecendo ajuda, perguntando ao padre
se estava tudo em ordem e com um elo sorriso de prontidão no rosto.
Na semana seguinte, a mesma coisa, afinal, era
o dia do Senhor. E a dondoca era piedosa ao extremo...
Chegou a famosa quermesse do padroeiro, e o
discurso foi lindo! O vigário convidou a dondoca para discursar na entrega os
pãezinhos abençoados, ademais, ela havia sido a maior colaboradora nesta obra
de evangelização e alimentação dos menos favorecidos. Realmente, a paróquia se
destacava na diocese pelo alto nível de assistência aos pobres. E tudo, claro,
graças a generosidade da moça.
Passada a correria das festas, tudo volta ao
normal no município, e a ordinariedade toma conta da população...
Era dia do Senhor: lá estava novamente ela com
seus trajes rebuscados e sua pele de animal cobrindo o corpo para precaver-se
do frio. E fazia muito frio. A missa foi solene e muito bem rezada. O evangelho
do dia era sobre o primeiro mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas e ao
próximo como a si mesmo. O sermão do vigário, impecável! Ao término, voltamos
àquela ladainha, na sacristia, de exagerada disposição da dondoca às coisas
sacras.
Acontece que, naquele dia, a saída foi
diferente. A moça que costumava retornar para sua casa com ascese espiritual,
naquele dia foi parada na rua por um homem maltrapilho, que sentia muito frio e
fome. Estava todo sujo. Com dificuldades de falar por causa da saúde
debilitada, pedia apenas um pão.
Enraivecida, a dondoca, que tinha a sua espera
um delicioso caldo para deleitar-se no almoço, não deu nem ouvidos ao rapaz.
“Homem sem noção”, dizia ela. Nem ao menos prestou-se a serviço de procurar
alguma migalha em sua bolsa de marca francesa. Toda a espiritualidade vivida
por ela na missa estava se perdendo com a insistência daquele rapaz “sem
noção”.
Contudo, naquele domingo frio, o homem não
tinha sequer um pão. Mas é claro, não era dia de quermesse de Santo Antônio.
Ademais, não havia microfone para anunciar a generosidade da moça dizimista. Não
sabemos aonde aquele pobre homem se encostou para cumprir seus dias, mas
sabemos que, na verdade, para aquela dondoca, era somente o dia do Senhor, e
não o dia dos irmãos.
Fim.
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