BÊNÇÃO
NUNCA É DEMAIS
Diác. Luis Gustavo da Silva Joaquim
Dona Tereza Maria nunca foi à escola.
O pouco que aprendeu com seu tio-avô, na infância, serve apenas para assinar o
seu nome. Morou grande parte da vida no sítio da família. Justamente por sua
educação família e rural, aprendeu desde cedo a fé católica.
Com a experiência dos seus 86 anos,
dona Tereza não perde sequer um domingo de missa. Costuma ir à paróquia de
Santo Antônio, no centro da pequena cidade de Paranópolis. Havia ali, um santo
padre amado por todos. Seu nome, João de Barros Medeiros, mais conhecido como o
querido “Padre Joãozinho”. Dona Tereza e o padre Joãozinho eram bons amigos,
sendo que, ao término de toda celebração, lá estava a senhora na sacristia para
tomar a benção. Era como que uma liturgia própria: ela se achegava, perguntava
pelo padre, pegava em sua mão, beijava e dizia “a bença, seu padre!”. Aquilo
era o costume.
Certo dia, num sábado de muito vento,
ouviu-se soar as badaladas o sino da Igreja Matriz. Era um som que não parava
mais. Como costume em cidades do interior, todos saíram de suas casas para
saber do que se tratava.
Na verdade, era uma má notícia: o
velinho padre Joãozinho morrera em seu quarto, enquanto rezava o santo rosário.
Houve um grandioso rito de despedida na cidade. Todos se comoveram. Para a
missa de corpo presente, houve a presença do arcebispo.
Aquele povo, porém, não poderia ficar
sem um pároco. Já na missa de corpo presente do padre Joãozinho, o arcebispo
nomeou e apresentou o jovenzinho padre Pedro, que acabara de ser ordenado três
dias antes. Estava “saindo do forno”, como diziam.
Já na primeira missa do jovem padre,
ao término, lá estava dona Tereza, na sacristia pedindo a benção. Mas para a
surpresa e espanto de todos: a resposta não foi o esperado. Aquele padre, que
acabara de chegar já se sentia no direito de mudar tudo e todos. Sua resposta
foi: “Minha senhora, não percebe que acabamos de celebrar o Santo Sacrifício,
onde já recebemos a benção solene por imposição das minhas mãos
neo-sacerdotais? Não tem necessidade de vir pedir mais uma benção”.
Todos ficaram atônitos com a resposta.
A ponto de não conseguirem transmitir uma palavra sequer ao padre ou à pobre
senhora que só queria uma bênção.
Mas o pior estava por vir. Ao sair da
Igreja, já triste a abatida, dona Tereza tomou o rumo da sua casa para preparar
seu almoço. Mas estava tão desnorteada, a coitada, que não viu o buraco da rua,
caiu num grande buraco da rua em construção, e infelizmente, a beata senhora veio
a óbito. Isso mesmo, ela morrera sem a “bença” do jovem padre.
O velório
de dona Tereza foi dentro da Igreja. Desta vez - porque não era do seu feitio
-, o jovem padre permitiu. Por remorso? Talvez. O que sabemos é que toda a
população do vilarejo esteve presente. De fato, dona Tereza era muito querida.
Ah, não há certeza disso, mas o boato
que se corre na cidade é que, após a morte de dona Tereza, aguardava no céu o
querido padre Joãozinho para lhe receber com um bonito sorriso e a tão desejada
bênção: “Deus te abençoe, Tereza”. Afinal de contas, era tudo o que ela queria;
era tudo o que ela precisava.
Fim.
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