CONTO
DA LOUCURA
Marina de Albuquerque Souza foi uma
criança doce e carinhosa. Na juventude, prestativa e sempre presente. Na
adolescência, fiel aos estudos e dedicada. Assim, conseguiu ingressar na
Universidade Federal próxima à sua cidade natal. Era moça de grande sonho:
queria advogar!
Tinha seus planos, e em nenhum deles
constava casar-se tão cedo, apenas ganhar a liberdade de morar em sua casa
própria, ter seu carro e escritório próprios. Assim como um bom brasileiro, que
nunca desiste dos seus sonhos, ela conseguiu isso e muito mais.
Seu estilo de vida era desejado por
muitas jovens da sua idade. Ela, porém, não se gabava disso. Simplesmente vivia
aquilo de modo que, aos poucos, aquilo tudo se tornou monótono e repetitivo.
Certa vez, em noite chuvosa de
sexta-feira, a recém-formada estava reclusa em seu santuário pessoal, chamado
comumente por quarto, enquanto olhava os respingos de chuva escorrendo sobre a
janela, criando assim aquele embaraço no vidro. Marina adorava este clima.
Tanto adorava que ficava contemplando a paisagem e sentindo o cheirinho de
terra molhada por um longo tempo.De repente, ouviu passos em direção à sua
porta. O olhar atencioso para a chuva curvou-seentão, carregado de dúvida e
aflição, em direção à porta. A princípio, um olhar suspeito de quem não sabe se
realmente ouviu alguma coisa ou era impressão. No entanto, sua intuição
feminina não falhava e, de fato, havia um barulho estranho de passos vindo do
corredor.
Imediatamente, Marina buscou algum
objeto com o qual fosse capaz de se defender de qualquer perigo. Assim, não
pensou duas vezes: foi o tempo de pegar no cofre a sua pistola carregada e
preparar-se para a visita indesejada. Dentro de si questionou-se: "Quem
seria? O que queria?" Respostas que, em breve, saberia. Cada vez mais os
passos se alongavam e aproximavam-se. Até que a porta se abriu, e ela mais do
que depressa, atirou. Mas não viu ninguém.
"Seria loucura?", pensava
ela, ao passo que passava os olhos desesperados em todos os cantos do corredor,
mas continuava não vendo ninguém.Foi nesse momento que a jovem advogada notou,
então, um pedaço de papel branco no chão, com algo escrito em letra cursiva na
cor preta.
Foi em direção ao papel, desconfiada. Mais
uma vez correu os olhos para ver se tinha alguém, e mais do que pressa pegou o
bilhete, correu para o quarto e trancou a porta. Afobada, com a respiração
acelerada e ainda sem entender o que estava acontecendo, sentou-se na ponta da
cama e abriu o papel.
"Qui Sum?” (quem eu sou?) era a
mensagem no bilhete. A recém-formada, naquele momento, fez uso das suas aulas
de latim da faculdade e, se dando conta da pergunta, debruçada sobre sua
escrivaninha, voltou a perguntar-se: "seria loucura?". Mas, como no
estalar de dedos, isso já não importava, porque algo lhe causava mais incômodo:
ela não tinha uma resposta.
“Como não?”, se questionava. Enquanto
universitária, Marina foi a primeira da turma; havia passado direto pelo exame
da OAB; nunca havia ficado sem dar respostas em qualquer avaliação que fosse e,
naquele momento, se calava diante da questão.
Marina ficou perplexa. Buscava as
respostas em seus em seus livros, seus dicionários e compêndios; acessava a
internet, mas nada a consolava. Que desespero! A arma que havia usado já estava
estirada junto ao pé da cama, e a grande arma que agora possuía em mãos, era
aquele bilhete cuja procedência era desconhecida.
Marina enlouqueceu. Sua família
precisou interná-la no "Manicômio dos Pensantes", e dali em diante
não tivemos mais notícias dos ocorridos. O que sabemos, portanto, é que, quem a
visitou naquela noite, na verdade, foi a sua consciência, propondo uma conversa
da qual ela não estava preparada.
Fim.
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