Pular para o conteúdo principal

Conto da loucura

 

CONTO DA LOUCURA

 Diác. Luis Gustavo da Silva Joaquim


Marina de Albuquerque Souza foi uma criança doce e carinhosa. Na juventude, prestativa e sempre presente. Na adolescência, fiel aos estudos e dedicada. Assim, conseguiu ingressar na Universidade Federal próxima à sua cidade natal. Era moça de grande sonho: queria advogar!

Tinha seus planos, e em nenhum deles constava casar-se tão cedo, apenas ganhar a liberdade de morar em sua casa própria, ter seu carro e escritório próprios. Assim como um bom brasileiro, que nunca desiste dos seus sonhos, ela conseguiu isso e muito mais.

Seu estilo de vida era desejado por muitas jovens da sua idade. Ela, porém, não se gabava disso. Simplesmente vivia aquilo de modo que, aos poucos, aquilo tudo se tornou monótono e repetitivo.

Certa vez, em noite chuvosa de sexta-feira, a recém-formada estava reclusa em seu santuário pessoal, chamado comumente por quarto, enquanto olhava os respingos de chuva escorrendo sobre a janela, criando assim aquele embaraço no vidro. Marina adorava este clima. Tanto adorava que ficava contemplando a paisagem e sentindo o cheirinho de terra molhada por um longo tempo.De repente, ouviu passos em direção à sua porta. O olhar atencioso para a chuva curvou-seentão, carregado de dúvida e aflição, em direção à porta. A princípio, um olhar suspeito de quem não sabe se realmente ouviu alguma coisa ou era impressão. No entanto, sua intuição feminina não falhava e, de fato, havia um barulho estranho de passos vindo do corredor.

Imediatamente, Marina buscou algum objeto com o qual fosse capaz de se defender de qualquer perigo. Assim, não pensou duas vezes: foi o tempo de pegar no cofre a sua pistola carregada e preparar-se para a visita indesejada. Dentro de si questionou-se: "Quem seria? O que queria?" Respostas que, em breve, saberia. Cada vez mais os passos se alongavam e aproximavam-se. Até que a porta se abriu, e ela mais do que depressa, atirou. Mas não viu ninguém.

"Seria loucura?", pensava ela, ao passo que passava os olhos desesperados em todos os cantos do corredor, mas continuava não vendo ninguém.Foi nesse momento que a jovem advogada notou, então, um pedaço de papel branco no chão, com algo escrito em letra cursiva na cor preta.

Foi em direção ao papel, desconfiada. Mais uma vez correu os olhos para ver se tinha alguém, e mais do que pressa pegou o bilhete, correu para o quarto e trancou a porta. Afobada, com a respiração acelerada e ainda sem entender o que estava acontecendo, sentou-se na ponta da cama e abriu o papel.

"Qui Sum?” (quem eu sou?) era a mensagem no bilhete. A recém-formada, naquele momento, fez uso das suas aulas de latim da faculdade e, se dando conta da pergunta, debruçada sobre sua escrivaninha, voltou a perguntar-se: "seria loucura?". Mas, como no estalar de dedos, isso já não importava, porque algo lhe causava mais incômodo: ela não tinha uma resposta.

“Como não?”, se questionava. Enquanto universitária, Marina foi a primeira da turma; havia passado direto pelo exame da OAB; nunca havia ficado sem dar respostas em qualquer avaliação que fosse e, naquele momento, se calava diante da questão.

Marina ficou perplexa. Buscava as respostas em seus em seus livros, seus dicionários e compêndios; acessava a internet, mas nada a consolava. Que desespero! A arma que havia usado já estava estirada junto ao pé da cama, e a grande arma que agora possuía em mãos, era aquele bilhete cuja procedência era desconhecida.

Marina enlouqueceu. Sua família precisou interná-la no "Manicômio dos Pensantes", e dali em diante não tivemos mais notícias dos ocorridos. O que sabemos, portanto, é que, quem a visitou naquela noite, na verdade, foi a sua consciência, propondo uma conversa da qual ela não estava preparada.

Fim.

Comentários